domingo, 22 de novembro de 2009

Superego.

Apontou a arma, puxou o gatilho e sorriu.

- Vamos acabar logo com isso de uma vez - e olhou para sua vítima com o olhar perdido e sanguinário.
- Por favor, deixe-me escrever algumas cartas de adeus, só isso que te peço... - e olhei com os olhos azuis lacrimosos.
- Sabia que você viria com esses melodramas, se eu não te conhecesse bem o bastante talvez eu me comovesse com isso. Vá, escreva a maldita das cartas, despeça-se dessas amizades vãs e dessa vida fútil logo de uma vez. Morra com um pouco de dignidade! - disse impaciente e se escorando em um móvel da sala.

Ela segurava a pistola com maestria de quem já matou todas as almas do inferno, mas aquela era sua primeira vez, queria ser rápida, prática e profissional. Usava uma calça preta justa, uma bota e um casaco de couro - a dama de preto. Tinha os olhos negros pintados como egípcia, seu olhar era profundo e lânguido, seu corpo esguio e seus movimentos rápidos.

Enquanto ela brincava de engatilhar e desengatilhar a pistola, eu escrevia minhas cartas, tentava, ao menos. Com as mãos trêmulas eu manejava a caneta como quem se fosse a pistola, o que escrever? Para quem escrever? Começava a me arrepender de ter pedido clemência e odiar aquela mulher por sua benevolência. E assim que pensava a quem deixaria meus últimos suspiros, ele veio e preencheu toda minha mente. Ele era o sujeito de todas as frases, o mocinho de todos os romances, ele era a terceira pessoa de todas as conjugações, era para quem meus adjetivos mais belos se deleitavam, ele era a clave de sol de todas as óperas. Era simplesmente ele. E assim que sua imagem surgiu, com seus longos cabelos escuros e seu sorriso gentil, veio toda opressão, o pânico, o medo de partir. Eu gritava em silêncio, dilacerava-me por dentro, corroía-me em memórias, dores, lamentos. Por quê? Logo agora que tinha ele? Estava dificultando muito as coisas. Que se fodesse a vida. Eu era só mais uma alma, um número a mais no inferno.

Era difícil dizer adeus, pedi para que não chorasse, que não sofresse, disse que olharia por ele, mas e havia algum além? Como prometer algo que não se sabe? Talvez quando o tiro soasse eu simplesmente fosse apagada e daí? Não tinha nada shakesperiano para dizer, devotei simplemente meu amor eterno e sincero. Passei a vida inteira escrevendo e agora não deixava uma linha que valesse um centavo. "C'est la vie". Nada além disso.

- Estou pronta - e olhou firme para ela, sua assassina - Faça o que tem que fazer.
- Agora sim você me surpreendeu, você sempre me pareceu uma Julieta insolente demais para viver e vaidosa demais para o Romeu, mas o que estou dizendo? - E sorriu, orgulhosa, não esperava aquela coragem dela, olhar aqueles olhos azuis piedosos seria ruim.

Puxou o gatilho e atirou. 3 tiros no peito. Ela caía lentamente numa meia elipse com os olhos abertos, pálida e encarando sua assassina.

E aquela dama de preto também era eu.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Gina em: Uma Odisséia Curitibana

O curitibano e o vizinho no elevador:

O curitibano acorda, mau humorado, é claro, toma um café e pega o elevador no andar de seu apartamento e o elevador pára antes de chegar ao térreo...
— Fecha, fechaaaaa portaaaaa... Droga!!!!!!!
O vizinho abre a porta do elevador e entra, para infelicidade do curitibano.
— Bom dia!!!!!!!
— Bom dia...
O elevador demora séculos para descer até o térreo e aquele silêncio está incomodando já.
— Tempinho hein?
— Pois é, diz que vai chover hoje
— É essa cidade é maluca mesmo, ontem tava aquele calor...
E o elevador finalmente chega ao térreo e os curitibanos se despedem se sentindo os cidadões mais simpáticos do universo.

O curitibano e a pesquisa de opinião:

Lá vai o curitibano andando pela rua XV calmamente, está no horário e como todo habitante de sua cidade ele é uma lesma na calçada...
— Bommmmm diiiiiiaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!- diz uma voz simpática que fez uma aparição espontânea na frente do curitibano bloqueando sua passagem. Ele pára, pensa um instante, dá uma avaliada de cima à baixo e nota a logomarca no canto direito da blusa.
— É pesquisa?? - pergunta
— Sim querido, mas é rapidinho são só algumas perguntinhas.
— Hmm... Então eu estou atrasado.
Desvia da pesquisa e apressa o passo até a próxima quadra.

O curitibano e a paulista no metrô.

O curibano vai à São Paulo a trabalho e precisa pegar o metrô para chegar a convenção da empresa. Ele entra no veículo e nota que todas as pessoas parecem estar conversando, pensando com os seus botões ele chega a conclusão que deve ser alguma turma de uma escola ou faculdade que pegam metrô junto, é claro. O curitibano senta num dos assentos em fileira na lateral e fica pensando na vida, no tempo...

— Oie!! Boa tarde!! Nossa que canseira hein, hoje trabalhei que nem um cavala, você sabe né, tem dia que o serviço é levinho, mas tem dia que pesa, nossa. To moída. Sabe que a minha vizinha, a Rosicreide, ela é uma folgada, trabalha só 4 horas por dia e fica reclamando ainda...- e a paulista continua contando da vizinha, da prima, da piriquita, do papagaio, do cachorro da Rosicleide.
Nesse momento o curitibano já está acuado, amendrontado, encolhido no assento. Entra em pânico com o excesso de contato humano num dia só, então ele começa a rezar já pensando que é assombração.
— Ei você quer uma bolacha? - oferece o curitibano, sentindo-se meio estranho pois é avesso a sua natureza oferecer coisas.
— Nossa que gentileza, eu aceito sim...

E o curitibano atocha a paulista de bolacha, uma atrás da outra, para ver se mastigando ela fica calada.

O curitibano e o turista pedindo informação.

O sujeito está aproveitando a manhã de sol, rara a sua cidade, para fazer uma caminhada, respirar ar puro, pegar um solzinho... Ele não se distancia muito de sua casa, porque no fim das contas ele não sabe nem ao certo onde é sua casa.
— Oie moço. Por favor onde fica a rua Bento Viana?
— Desculpe eu não sei...
Claro que ele não sabe, mas a Bento Viana era próxima rua a direita, simples assim. E o turista volta pra sua cidade dizendo que curitibano é grosso e não dá informação. A verdade é que curitibano não sabe onde fica lugar algum para poder dar uma informação.

O curitibano e o trânsito de São Paulo.

Existem 3 opções para um curitibano nessa situação:
1º- Ele se perde 355 vezes antes de chegar ao destino, porque nem em Curitiba, que a maioria dos locais tem fácil acesso, ele consegue andar. Imagine em São Paulo com um retorno a cada 50km.
2º- Ele bate o carro. Primeiro pois curitibano se acha O MOTORISTA, mas no fundo ele é lerdo no trânsito, ruim mesmo e ainda por cima, o curitibano acha que os outros motoristas são videntes, por isso ele utiliza a seta só depois que já fez a curva.
3º- Ele se perde mais uma vez, porque o paulista disse que ele precisava virar à esquerda depois do farol e o curitibano pato roda São Paulo inteira atrás de um farol. Porque em Curitiba farol é farol e sinaleiro é sinaleiro

O Curitibano e a pessoa simpática no ônibus.

A pessoa ao lado está degustando uma barra de chocolate que parece simplesmente deliciosa, o Curitibano está babando no chocolate, mas é claro que ele não vai nem puxar papo com a pessoa, porque no fim das contas ele só sabe falar no máximo do tempo de Curitiba, nunca que o papo ia chegar no chocolate.
— Ei você quer um pedaço de cholocolate??- O curitibano olha para pessoa como se estivesse olhando um alien
— Você não é daqui né?
É claro que a pessoa simpática não era de Curitiba

O curitibano e o turista que fala que os curitibanos são frios.

—Curitibano não é frio, só não somos muito simpáticos - defende-se
—Ah é claro né, mesma coisa que dizer que o gelo é frio mas não é frio.
— Nossa você viu que frio que fez hoje? Sai de casa tava tudo branco de geada - e o curitibano começa pela 15º vez ao dia falar do tempo estranho da cidade.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Opus

Escolha uma vida. Uma personalidade. Um caminho. Um vício. Escolha um pecado. Escolha uma virtude. Uma oração. Um fetiche. Uma razão. Escolha uma droga para consumir. Um sonho para esquecer. Um pesadelo para lembrar. Escolha uma carreira. Escolha um livro. Um filme. Uma revista. Um ídolo. Um vilão. Escolha um herói. Escolha um presidente. Uma religião. Escolha uma música para chorar. Uma para sorrir. Uma para amar. Escolha um príncipe encantado. Uma decepção. Escolha seu primeiro amor. Escolha seu último amor. Uma maneira para chorar. Uma para sorrir. Uma para se despedir. Escolha um veneno para tomar. Escolha roupas. Escolha comidas. Escolha amigos. Escolha lágrimas. Escolha desejos. Escolha desespero. Escolha uma revista no dentista. Escolha Visa. Mastercard. Escolha Pepsi. Coca Cola. Cirugia Plástica. Escolha ser Vegan. Escolha a direita. Escolha a esquerda. Escolha o centro. Escolha uma maneira de esquecer suas escolhas erradas. Escolha uma maneira de gloficar as certas. Escolha alguém para dar um soco na cara. Escolha escolhas para escolher. Escolha a vida. Escolha a sorte. Escolha a morte. Tristeza. Desespero. Solidão. Escolha, simplesmente escolha.

domingo, 30 de agosto de 2009

Gina em: A síndrome da carteirinha

Eu era uma criança feia. Era mesmo, assumo, não tem problema! O importante é que na infância nenhuma criança é feia de verdade, sempre têm um time de parentes para babar em cima . Que criança se sente feia assim? "Ohhhh coisinha linda da mamãe! Cuti cuti cutiiii" e eu lá com aquela cara de ranhenta e banguela. Seria maravilhoso se depois dos 7 anos a vida continuasse assim, com um pessoal no background cuidando da minha auto-estima, mas cresci e depois dessa idade descobri que não sou o Peter Pan.

Na vida adulta aquela criança ranhenta que era o cuti cuti da mamãe assume uma identidade ou melhor, várias identidades e todas elas com fotos 3x4: a carteira de identidade, a carteira de motorista, a carteira da faculdade, o passaporte, a carteira de trabalho... E o pior, o Peter Pan frustrado em mim não serve para tirar fotos 3x4 e duvido quem diga que sirva para essas malditas fotos.

Sempre fugi correndo das fotos 3x4, não importa o que eu faça, sempre saio torta, vesga, com cara de assustada mas posso dizer que efetivamente descobri minha síndrome do pânico carteirística na faculdade com carteirinha da federal. Todas as carteirinhas que eu vi eram feias, estranhas e até a Creusa que é minha melhor amiga saiu extremamente torta. Claro que esses boatos me assustavam, mas pelo que eu lembrava estava arrumada no dia da foto.

Até que ela chegou, a carteirinha, bem que podia não ter chego, mas chegou - a cara torta, o cabelo desgranhado e um olho menor que outro,vesga, sabe lá como isso é possível. Horrível. A pior carteirinha que já vi até hoje. Eu virei a piada da turma, todos queriam ver a carteirinha da colega vesga, mas até que tinha seu lado bom, eu tinha uma piada dentro da carteira, era só tirar a carteirinha e mostrar: riso garantido!

Acabei trancando meu curso na federal porque eu não tenho saco para administração e duvido quem tenha. Mudei de faculdade e mais uma vez, uma nova carteirinha, uma nova identidade no mundo acadêmico. Tive um zelo tremendo no dia foto, arrumei-me com todo prumo e tirei a foto, nem quis ver, tinha certeza que nenhuma foto seria pior que a da federal. Certo? Errado! Continuava horrível! HORRÍVEL!!! Meu cabelo se tornou uma massa preta atrás da minha cabeça e rosto completamente disforme. Não queria ser a piada da turma, mas novamente eu fui: da colega vesga para a colega desgranhada.

É nesses momentos que não queria ter crescido, que queria ser a Peter Gina, porque independente da cara torta iria ter aquele time no background para dar uma força na auto-estima, mas não adianta, a infância ficou para trás com os livros do Harry Potter e os episódios do Dragon Ball, parece descabido voltar a ser criança para ganhar um dengo.

Mas ainda não foi minha última chance de desfazer minha identidade ruim no mundo acadêmico, perdi a carteirinha e precisei de uma segunda via. Juro que não foi proposital, embora eu esteja com os dedinhos cruzados nas costas, mas enfim, tirei outra foto 3x4 para a carteirinha. Era minha chance! Fiz várias tentativas até que, ufa, ficou boa a foto! Sim! Não estava mais torta e lá fui eu toda sorridente mostrar para amigas:

— Olha gente! Essa sou eu de verdade! Não estou torta nem vesga!!
— É está melhor que as outras - disse uma colega enquanto passa a carteirinha para outra
— Nossa Gina! - disse a outra amiga
— Que foi? - perguntei logo
— Você parece que está com amarelão!

Era verdade! A foto estava boa mas estremamente amarelada, mas dessa vez desisti de tirar outras, assumi essa identidade de uma vez, agora eu sou a Gina. A Gina amarelão!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Romantismo

Ela olhou para ele com os olhos amanteigados e doces, lascivos, furtivos, fortuitos, ele correspondeu o olhar. Claro. Mulher e Homem era fogo no fogo, brasa na brasa e eles ardiam, tanto por amor, paixão ou qualquer outro codinome que se dê a esse tipo de coisa.

Ele passou as mãos em sua cintura, enlaçando-a e ela arrepiou-se toda. E foram se esfregando, se fundindo, entrando um no outro e toda aquela coisa, de.. sexo. You know what I mean.

Então tudo era lindo, maravilhoso, perfeito, nem fazia frio em Curitiba e eles seguiam com um ritmo quente, acelerado e selvagem. Então, eis que o curitibano para de súbito e olha no relógio.

— Meu deus estou atrasado !!!!
— Claro que não está, eu vou junto com você podemos ficar mais uns 15 minutos ...
— Não, não podemos!

Tirou, gardou o que tinha para guardar e saiu correndo. Ela sabia que ele podia se atrasar, tinha certeza. Chorou um pouco, mas pensou: "Ele era curitibano, tinha que ser estranho mesmo!!". E começou a procurar no celular telefones com DDDs variados por precaução...

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Alter egos

http://circodaarlequina.blogspot.com/

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Gina em: Excertos Curitibanos.

As invisíveis:

Gina liga para Creusa se sentindo o ser humano mais miserável da terra...
— Guria, me dá um colo vai, estou me sentindo tão miserável - suplica Gina ao telefone.
— Tudo bem, o que acha de tomarmos um café? - convida Creusa.
— Bom, por mim tudo bem, mas vamos invisíveis certo? Não quero ser notada hoje - alerta Gina.
— Combinado então - diz Creusa animada.

15 minutos depois elas vão ao café e Creusa derruba a bandeja com as bebidas até que o Shopping inteiro nota as duas.

— CORRE CREUSAAAA ESTÃO OLHANDO PARA GENTEEEE!!!

30 minutos depois na loja de departamento, provando óculos gigantescos e feios. Gina derruba todos os óculos da loja.

— MEU DEUS CORREEEE GINA ESTÃO NOS NOTANDO!!!

Sim, 100% invisíveis.

O remédio para emagrecer

— Gina você viu aquele guri que cuida dos carros aqui na frente? - diz a mãe de Gina
— Sim mãe, ele sempre está aí enchendo... - diz a rabugenta Gina
— Viu como ele emagreceu ? - repara a mãe
— Sim mãe, ele voltou a cheirar cola ... - diz mais mau humorada ainda
— Impressionante né, ele estava todo gordinho e agora está parecendo uma vareta. Acho que vou comprar um saquinho para mim - diz séria.
— De onde você tira essas idéias hein?? - exaspera-se Gina

E eu penso, ser normal deve ser uma virtude incrível. Até minha mãe é uma doente.
Mundo estranho. Muito estranho.

O namorado Azul

Creusa liga para Gina e pede colo, o canalha do pretendente dela continua a machucando e ela decidiu procurar um conforto, um outro alguém.
— Ai Gina estou tão miserável, gosto de um cara que me despreza e agora arranjei um outro alguém - chora Creusa
— Isso é ótimo guria!!! Fico feliz que você tenha decidido procurar pessoas novas e tal - diz Gina quase gritando de alegria.
— Esse é o problema... - suspira Creusa
— Lá vem, affair seu só podia ser encrenca - alerta Gina preocupada.
— Ah ele é bacana, gosta de mim sabe e me dá dinheiro e me protege... - lembra apaixonada.
— E qual é o problema então ??? - pergunta Gina curiosa
— Ele é azul e tem um rabo e eu só gosto dele assim - lacrimeja Creusa...

E gina pensa "Azul e tem um rabo? Nada mau... Estranho seria se ele parecesse um ser humano" e até se anima com o namorado azul da amiga, melhor assim, pessoas são estranhas.