sábado, 28 de junho de 2008

Gina em: Pretinha e eu.

Um dia desses inventei de dizer no meu estágio que tinha aquele best-seller "Marley e eu", aquele do cachorrinho na capa, desde então tive que emprestá-lo para uma colega de trabalho e agora já tem mais um na fila querendo ler o livro e eu, pensando cá com os meus botões,será que se eu falar do meu cachorro terei um post de sucesso??

Minha história com os caninos começou no jardim 3 quando meus pais decidiram que um cachorrinho seria bom para a Lonely Little Gina que ficava o dia todo sozinha em casa, então eles apareceram com um filhotinho de pastor alemão bem pequeno. Batizei-o de Beethovinho porque ele se parecia com aquele cachorro do filme. E lá ia Gina esmagando, apertando, judiando do filhotinho.

O fato que mais me marcou daquela época foi um concurso de "Rainha da Primavera"que iria acontecer após a quermesse da paróquia do bairro. Meu pai me inscreveu no concurso e minha mãe se encarregou de preparar a roupinha da futura rainha, tínhamos também dois cavalos na época e uma charrete romântica. Meu pai enfeitou a charrete com flores para passearmos durante as festividades e essa seria a carruagem da rainha.

Quando chegou o dia do concurso, estavam todas as crianças da minha turminha do jardim lá e eu já contava com a coroa como minha. Anunciaram as candidatas, as criancinhas desfilaram e lá fui eu nos meus pequenos sapatinhos de boneca, andando na passarela com a destreza e a glória da rainha. Abriram-se os envelopes, os joelhinhos tremiam de emoção... And the oscar goes to: Amanda. "Amanda?" "Amanda não é meu nome..." "Eiii moço tem um erro aí!!". E o segundo lugar, a princesa da primavera é: Gina!!!

Hoje quando me lembro desse dia sei que meus complexos de inferioridade e de segundo lugar começaram ali, eu tinha minha carruagem, eu tinha a roupinha bonitinha que mamãe preparou, eu tinha meu cachorrinho e mesmo assim fui segundo lugar. Nem o passeio de charrete me consolou, nem as mordidas insessantes do meu cachorro me consolaram e as fotos daquele dia ilustram uma criança amuada, emburrada, com absulatemente nada a comemorar. Bethovinho para ajudar tinha roído minha sandalinha da Xuxa no estímulo louco da troca de dentição. "Ohhh deus o que fiz para merecer"

Na semana seguinte Bethovinho desapareceu e uns 12 anos depois descobri que ele não tinha sumido e sim morrido. Amanheceu com as patinhas para cima na lavanderia e logo deram sumiço no cachorro para que eu não sofresse.

Logo após meus pais compraram um poodle, batizei-a de Priscila como aquela do seriado infantil da globo. Priscila era um poodle branquinho branquinho, de porte médio e o cachorro mais levado que tivemos. Incontáveis vezes ela saltou da janela do carro em movimento para correr atrás de um cachorro e vira e mexe sumia de casa. Na época nossa doméstica era uma senhora já de idade, um pouco manca e um pouco fanha. Seu nome era Anastácia.Ela sofreu com a Priscila, em todas as sumidas do cachorro, ela saia correndo e mancando e gritando com a sua voz meio fanha. "Seuuuu Carlooooss a Priscila fugiu". E lá ia o pai da Gina correndo atrás da maluca da cachorra.

Depois de um tempo, Priscila apareceu prenha em casa em uma dessas sumidas. Foi uma alegria só, agora teríamos mais cachorrinhos!! Durante as férias do fim do ano, ela teve 5 filhotes branquinhos como ela e no meio uma filhotinha mais moreninha, cor de caramelo. Vendemos todos os filhotinhos que conseguimos, mas aquela mais pretinha ficou, ninguém queria um poodle cor de caramelo, poodle bonito era branco ou branco.

No fim das contas a Pretinha ficou conosco junto com a sua mãe maluca e o nome ficou esse mesmo, Pretinha. Ela era menor que a mãe e mansinha mansinha, nunca roeu nada meu, nunca latia para visitas, nunca fugia. Com a maioridade a Priscila continuava cada vez mais esquizofrênica, mordia sapos uma vez por semana e tínhamos que acodí-la sempre com leite para que o veneno não a matasse. Bem no fim, após o quinto sapo a Priscila faleceu envenenada.

Pretinha ficou branca após adulta e presenciou os momentos mais peculiares e estranhos da nossa família, ela sempre ia comigo até a panificadora comprar coca. Eu de bicicleta e ela correndo atrás. Eu chegava com a coca e sempre a criançada do bairro começava a gritar assim que me via na esquinha com a sacolinha.

— Ginaaaaaaaaaa me dá um gole coca!!!

E numa dessas eu estava bem na curva e virei para olhar o pessoal gritando e pedindo coca, quando repentinamente passei reto na curva e entrei dentro de uma dessas folhagens estúpidas que as pessoas insistem em ter em casa. A tal da coroa do espírito santo. Um arbusto baixinho cheio de espinho que se você quebrar os galhos sai um veneno branco. Pretinha ficou olhando atônita enquanto sua dona virava uma penera dentro do arbusto. Foi a piada do bairro por um mês mais ou menos.

Pretinha nunca latia, só se visse algum cachorro preso, ai ela ia agitar na frente da portinhola. Latia para pastor alemães, rotweilers, até para pit bulls, mas só se estivessem presos, é claro. Pretinha não mordia, não fugia, não ficava doente, não sentava, não conseguia pegar a bolinha e devolver para dona. Mas sobreviveu e ganhou a simpatia de todos.

Hoje não imagino a vida sem ela pulando na gente logo quando abrimos a porta, não me imagino sem ralhar com ela por repetir esse ritual mesmo quando estamos de saia, arranhando nossas pernas. Não imagino a vida sem ralhar com ela no verão quando andamos de havaíanas e ela insiste em lamber nossos pés. Não imagino que alguém telefone e ela não uive enquanto ninguém atende, como se estivesse dizendo "Eiiii está atrapalhando minha sesta, atenda essa porcariaaa!!!"

Lembro-me de um dia, nessas idas e vindas da panificadora com a bicicleta, quando um carro passou ao lado dela e estava tão perto que prendeu sua pelagem e ela começou a chorar de dor no meio da rua, mais assustada do que realmente com dor. Fui tirá-la do meio da rua para que ela não fosse atropelada e ela me mordeu com tanta força que cheguei em casa com a bicicleta banhada em sangue. Fui a primeira e única pessoa que ela mordeu em toda sua vida canina.

Pretinha hoje têm 14 anos e vai completar 15 em janeiro, está bem velha e apresentando os sinais de sua idade. Continua feia, na verdade, ela nunca foi realmente bonita, não éramos donos zelosos para ficar escovando ela para pode fazer aqueles pentiados malucos de cachorro. Hoje poodles nem são os cachorros da moda e algumas vezes ela fica tão suja que temos que levá-la ao pet shop e dizer que a achamos na rua, de vergonha.

E daí? Feia e sujinha, a Preta é quase o 5º elemento da família, nós conversamos com ela, contamos tudo para ela e mesmo hoje quando ela raramente se dá ao luxo de sair da sua cama. Gostamos dela mesmo assim. Rimos da sua velhice, rimos não de chacota, mas de alegria por temos ainda nossa companheira. Hoje ela não enxerga mais nada e não raro bate nas paredes por não enxergá-las. E o mais engraçado de tudo, que ela também não imagina a vida sem nós, podemos soltá-la no meio da rua e mesmo assim ela vai voltar e ficar chorando na porta para recolhermos ela.

Pretinha foi o único bichinho que sobreviveu a nossa família. Matamos 3 peixinhos beta,4 peixinhos daqueles laranjinhas (meu irmão foi jogar bola na sala e destruiu o aquário, nunca vou me esquecer da surra que ele levou e do estado do tapete que fazia plof plof a cada pisada com os peixinhos se debatendo), 4 cachorros, 2 cavalos, um peru e um rammster e ela sim, sobreviveu. A única. Sei que ela não renderia nenhum best seller e que nem poderia colocar ela na capa de um livro de tão suja que ela está. Mas ela continua lá firme e forte, observando tudo com a sua sabedoria canina a quem tudo observa e a tudo sabe.

E hoje eu me pergunto. Será que ela é eterna? E a minha pergunta ecoa enquanto aquela menina emburrada e amuada, a princesa da primavera espera a resposta da vida.

3 comentários:

Mauro Castro disse...

Alguns peixinhos também pereceram sob meus cuidados...
Há braços!!

Ivan Grycuk disse...

Olá Dona Gina!

Gostei do post, parabéns!

Não cheguei a ter tantos bichos quanto você, mas os que eu tive até que viveram um bocado. O último foi uma pintcher que eu adorava. Adorava mesmo! Até "aquela aula de biologia". Nunca mais gostei de cachorros, nunca mais gostei de bichos e agora tenho até medo deles. Mas voltando a pintcher, eu ganhei ele de aniversário de 13 anos. E ela dormiu comigo até os 14 e pouco, até "a aula". Depois disso ela virou a cadela da minha irmã mais nova. E quando eu tinha quase 16 anos tivemos que dar ela à alguém porque estávamos nos mudando para beeeemmmm longe. Depois dela nunca tive outra.

Que vontade de andar de bicicleta!!

Um beijo.

Ivan Grycuk disse...

P.S.
Ah, Gina, mudei de vez para o blogspot. Quando você tiver um tempinho, o banner atualizado está no menu à esquerda.