terça-feira, 17 de junho de 2008

Gina em: Transtornos coletivos.

Ilustração do artista Cesar Lobo

Acredito que em qualquer município, assim como a zero-graus-celsius-curitiba-city, as criancinhas felizes aprendem desde de cedo a amar sua bela cidadezinha, com as suas arvorezinhas, suas pessoinhas gentis que não comprimentam no elevador.E lá vão as pequerruchas escreverem textinhos falando de como sua cidade é ecológica, de como sua cidade tem cidadões ou concidadões, que eu acho bem mais imponente e pomposo, possuem consciência e separam o lixo e principalmente de como seu transporte coletivo é moderno, com os lindos tubos de ônibus e aquele lindo vermelhão biarticulado, "o ônibus mais moderno do mundo".

As ingênuas crianças crescem e reparam que, apesar dos pesares, a prefeitura da cidade ecológica está cortando as lindas cerejeiras rosáceas da praça do japão, as lindas flores que parecem pequenas ametistas são violentadas em seu jazigo de asfalto, a cada carro que passa.Reparam que a consciência dos curitibanos permitiu que o aterro da Cachimba esteja dando seus últimos suspiros, após toneladas de sacolas plásticas e acima de tudo, reparam que ônibus nem é um transporte moderno.

Nós que no âmago das nossas almas amamos nossos lindos ônibus vermelhinhos, que agora nos permitem a apreciação de música clássica durante a viagem temos a maior decepção da vida ao enfrentarmos o maldito, o terrível, o abominável: O Biarticulado! Quando criança a pequena Gina sonhava em poder andar de ônibus coloridinho, um gigante giz de cera pintando a cidade de vermelho, amarelo, prata, laranja, mas ao crescer seu sonho virou pesadelo e um pesadelo constante e diário.

O martírio começa na entrada ou melhor, antes da entrada, na espera do ônibus. Durante os períodos normais o biarticulado demora cerca de 5 minutos e então alguma coisa acontece, o aquecimento global, a crise dos alimentos, a alta do barril de petróleo, a crise financeira americana, o caso Isabella e o ônibus acaba demorando 30 minutos para chegar. E quando você necessita do Pinheirinho/Rui Barbosa passam alcatéias, resmas, calhamaços, enxames, enfim, uma gigantesca quantidade de Santa Cândida/Capão Raso, além daquela dúzia de ônibus que passam no lado oposto ao da Gina. É claro, a lei de Murphy se aplica até no trasporte coletivo.
Quando o ônibus finalmente chega, uma onda de pessoas educadas vão se empurrando, se esmurrando e você que queria educadamente esperar os passageiros descerem para você entrar, é levado como o pólo negativo e positivo para dentro do ônibus. É claro que ninguém te empurra, ninguém te xinga e todos dizem "Com toda licença minha nobre senhorita, estou te esmurrando e empurrando para dentro do ônibus, mas é com delicadeza viu!"

Chegando no ônibus, você se sente uma sardinha presa com mais mil sardinhas podres na mesma latinha, odores identificáveis e não identificáveis se misturam no ônibus naquele frio da gélida Curitiba e é claro que ninguém vai abrir a janela e lá vão as sardinhas na sua estufa que mistura cheiro de repolho podre, coliformes variados, bactérias variadas e todas as espécimes de vírus da gripe. Aquela sinfonia de tosses e espirros e a Gina pensa: "certamente esse vírus não vai chegar aqui, claro que não...". E começa um terço só por precaução.

O ônibus vai entulhando e agora as pessoas resolvem serem educadas e pedirem licença para passar, mas não há mais espaço e a licença simplesmente não cria espaços onde não existem e Gina é simplesmente esmagada a cada pessoa que passa.
Em um momento divino, o milagre acontece, sim, existe uma luz no fim do biarticulado, ou melhor, um assento. O trono dourado! E ele sorri para Gina enquanto ela verifica se não está "mijado,cagado,vomitado ou com cheetos sabor chulé derramado", limpo, sim, o trono estava asséptico e lá vai Gina aproveitando a inércia e tentando se assentar. Era tarde, Gina perdeu a corrida pelo assento, 10 pessoas chegaram antes em 5 segundos de trono livre. É não foi dessa vez, todavia, é melhor, afinal Gina podia dormir mesmo com o terremoto que a cabeça encostada no vidro provoca e perder o tubo, porque a voz sensual nunca acerta o tubo:
— Ta ta nammm próxima parada estação Carlos Comes- e os passageiros se encontram no terminal do lado aposto da cidade

Em outro momento ela percebe que seu biarticulado está sendo ultrapassado, para quem não sabe o biarticulado anda numa rua única e raramente eles se ultrapassam, porque manobrar aquela coisa não deve ser algo muito fácil, mas enfim, o dela está sendo. Ela também repara que o motorista está parando no meio da quadra e esperando até o sinal (ou farol, como seja) fechar. "Eiiiiiiii seu motorista eu estou atrasadaaaaa!!", mas ele não está atrasado e como ele é o Rei do ônibus, o macho alfa, ele faz seu horário, faz seu tempo e que as pessoas esperem. Ou ainda, ele pode aproveitar o tempo parado para ajeitar as sardinhas na lata: freia, solta, freia, solta, freia, solta. E a inércia propicia deliciosos momentos de empurrões espasmódicos, involutários, para alegria da pessoa frente que vai ser esmagada por Gina e da pessoa de trás que vai esmagar Gina, como um fileira de peças de dominó caindo umas sobre as outras...

E é nesse momento que o ouvido de Gina vira penico:

— Tá-carregando-a-mãe-motorista!?!?!?
— Tá-carregando-a-sogra-motorista!?!?!?
— Tá-carregando-melancia-motorista!?!?!
— Tá-manobrando-carreta-motorista!?!?!
— Seu Filho da P!#$%$& !!!!

Obviamente Gina é uma pessoa Zen e não se afeta com nada disso, nem com o papo idiota dos calçudos do ônibus, que contam da sua vida regada a tubão (tubão aqui é utilizado no sentido de um tubo de ônibus grande) , com as das senhoras que agora começam a se xingar e bater boca ou com as pessoas que entram e gritam com a imponência do inexistente grito de indepedência "Abram o espaço ou morte".

Gina se atrasa para o trabalho, sua gerente visivelmente não acredita na história do ônibus, afinal o ônibus é tão moderno e eficaz.

Contudo, como qualquer situação da vida urbana cotidiana, podia ser pior. Gina poderia ser paulista e além de ser uma sardinha enlatada ela seria uma sardinha enlatada em um engarrafamento quilomêtrico, ela fica pensando como as pessoas agüentam ficar 4 horas sem visitar o toillet, os ônibus certamente devem ter banheiros né? É claro!

É podia ser pior mesmo...

3 comentários:

Ivan disse...

E podia ser pior ainda Gina... você podia ser paulista e... deixa pra lá!

É impressionante como a nossa visão das coisas muda, lembro que eu achava um absurdo meu primo deixar de jogar video-game comigo pra sair com a namorada... agora faço a mesma coisa com o meu primo!! Deja vu.

Vou fazer um estágio em SamPa mês que vem, estou torcendo pra conseguir um carro em comodato durante esse tempo... pegar ônibus vai ser DOSE!!!

Um abraço!

Creusa disse...

coliformes e bactérias são a mesma pessoa!!!

mas podia ser pior podia estar vomitado o bus XD

Ivan disse...

E o pior é que podia ser "bem mais pior" ainda:

Nós poderíamos ser argentinos!

Peguei pesado, né?!

Eu moro bem perto de onde neva aqui no Brasil. O que, na verdade, não significa que seja frio, mas é úmido!!! A cidade onde eu moro é bem plana e praticamente não tem prédios. E o mais absurdo é que tem vento SEMPRE! Verão, inverno, dia, noite, feriado, dia útil... SEMPRE tem vento!! Então entra a combinação:
-4º, umidade e vento.

Sabe como são as coisas, né:

- A faixa do lado é sempre a mais rápida;

- O carro do vizinho é sempre o mais bonito;

- O trabalho do chefe é sempre melhor que o nosso;

...e

- A minha cidade é sempre mais fria e mais quente que a tua!!

Ah, esqueci de falar o quanto eu ri lendo esse texto!! Gostei!! Vi um bocado de mim nele.

Um abraço Dona Gina!!